quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um filme de anti-história

Uma paródia, um arremedo de história, e reconstruída cheia de culpas.



"Bastardos Inglórios" (Inglorious Basterds, 2009), o novo filme do diretor Quentin Tarantino, acusa em todas as entrelinhas o que o cinema pode fazer sem precisar de provas, sem precisar de fatos, pois ele mesmo constrói e reelabora como bem os entender. Neste longa já tão aclamado mundo afora, Tarantino "muda" a história e dá a punição supostamente "merecida" pelos massacres nazistas cometidos durante a Segunda Guerra Mundial (que, a propósito, em 2009 se rememora os 70 anos de seu início).


É o sentimento de vingança a força motriz do filme. Num extremo está o protagonista, o tenente norte-americano Aldo Reine, do Tennessee (um Brad Pitt bastante incomum, com um sotaque im-pa-gá-vel que me arrancou algumas das melhores risadas do filme de duas horas e meia - vide Reine tentando arranhar italiano numa festa, no úlitmo capítulo). Reine lidera os "Bastardos", um grupo de oito soldados judeus norte-americanos que embarcaram para a França ocupada em 1944 com o objetivo de matar krauts (nazistas alemães), perpetrando uma crueldade semelhante às atrocidades nazistas. Essa "justiça com as próprias mãos" segue o padrão de escalpelar os soldados depois de mortos, ou esmagar seus crânios com um taco de baseball (o "especialista" com o taco é o "Urso Judeu", personagem interpetrado por Eli Roth, também judeu. A família de seus avós foi assassinada na Alemanha nazista. Roth, em entrevistas, disse que se sentiu vingado ao interpretar o personagem).


 A outra face da vingança é Shoshanna Dreyfuss, uma judia que presenciou o massacre de sua família comandado po um oficial alemão. Anos mais tarde, dona de um cinema, Shoshanna acaba atraindo o interesse de um jovem oficial alemão, ironicamente o protagonista de um dos filmes da propaganda nazi de Goebbels. Decidido que a estreia seria no cinema da moça, à qual compareceria o alto escalão nazista, Shoshanna também decide agir por conta própria e transformar o espetáculo num inferno terrestre.

O propósito é claro: dar o "troco" nos "selvagens" nazistas. E é quase impossível, no final, não estar torcendo pelo sucesso dos Bastardos. Fui contagiada pelo sentimento de satisfação pela vingança "merecida" que emana dos personagens, e quando o escalão nazista foi pelos ares, incluindo Hitler, não pude deixar de aplaudir (ok, sozinha) e me empolgar, quase me levantando da poltrona: "Eeeeita, filme bom da pega!" (Mas, caramba, essa é, de longe, uma das melhores cenas, ao lado da sequência na taverna e do embate final entre Reine e Landa!).


"Bastardos Inglórios" é um filme às avessas, de anti-heróis, de anti-história, de pseudo-vitórias e pseudo-derrotas.  Tarantino se supera, provando que "mudar" os fatos evidencia que a história não é de ninguém, e que mexer com memórias tradicionalmente sacralizadas como as da perseguição aos judeus durante a IIGM leva a crer que o processo de perpetuação das mesmas ainda abriga sentimentos tão humanos como ódio, vingança e redenção.

domingo, 6 de setembro de 2009

Sobre músicos, acarajés e ukuleles

O Beirut fez sua primeira apresentação no Brasil nesta sexta última, na cidade de Salvador. A apresentação fez parte do primeiro dia da 16a. edição do PercPan, Panorama Percussivo Mundial, considerado o maior festival de percussão do mundo.
Em Salvador os shows foram dias 4 e 5 de setembro. No Rio de Janeiro, acontecerão dias 8 e 9, com o Beirut no dia 9.

Acompanhe o comentário do show em: http://magicacaixa.blogspot.com/2009/09/o-primeiro-show-do-beirut-no-brasil.html

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Meus oito anos

Da saudade daquele tempo em que minha preocupação maior era o dever de casa, me veio a lembrança deste belo poema de Casimiro de Abreu.

Meus Oito Anos
Casimiro de abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência! -
Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar - é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito, -
Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais! -
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mimetizando

Acabei de assistir a versão brasileira do "British's Got Talent", um horror de imitação.
O "Qual é o seu talento?" não passa de um programa de auditório, com um 'repórter' que faria boa figura num filme Harry Potter, e quatro 'jurados' absolutamente parciais. Cadê a dureza do Arnaldo na hora de avaliar a performance de um guri de quatro anos coreografando pagode na TV aberta? Deixa pra lá, se o Conselho Tutelar deixou, né? Deixa, só porque o garotinho é negro e pobre, e teve graves problemas de saúde quando nasceu, e, claro, isso é comovente, e com certeza o público não gostaria nem um pouco se ele não fosse classificado, pobre garotinho...

Ah, e tem também a versão brasileira do Paul Potts! É um 'limpador de vidros' que canta ópera; inclusive ele cantou a "Nessun Dorma", mesmíssima música que o Paul cantou na versão inglesa do programa... E, claro, o dos vidros contou antes sua história comovente, que passou por momentos difíceis trabalhando fora do Brasil, mas que sempre amou a música e o pai dele morreu e ele não pode ir ao enterro, mas que o velho queria que ele fizesse o que gostava, bla bla bla

Sabe, uns disseram que a vida imita a arte, outros que a arte é que imita a vida, aí tem aquela coisa da mimesis e da diegesis, mas hoje tá tudo uma bagunça: a arte imitando a arte, a "arte" imitando a "arte", a vida imitando a "arte", a "arte" imitando a "vida"... enfim.
Por favor, me dêem algo novo. Preciso de uma catarse.
Obrigada.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Viagens no tempo - Parte 1

Aproveitando um tempinho de folga, aproveito para publicar essa postagem que já estava cozinhando na cabeça desde ontem. Hoje vou falar sobre viajar no tempo. OH! Coisa de criança?



A maioria das pessoas que imaginam viagens no tempo geralmente associam isso a uma máquina. Como H. G. Wells, no livro que deu nome ao filme "A Máquina do Tempo", ou até o Delorean da trilogia "De volta para o futuro". Há também os que imaginam viajar no tempo/espaço através de portais, como os criadores do primeiro filme "O Exterminador do Futuro", ou mais ou menos como os de "Stargate", aquela famosa série do final dos anos '90. E há aquela tendência mais diferenciada de "Efeito Borboleta", em que, para viajar por suas memórias, o protagonista pode fazê-lo através dos seus cadernos e fitas de vídeo.

Há quem queira voltar no tempo para consertar erros e tomar umas atitues, em vez de outras.
Não penso muito nisso. Imagino viagens no tempo e no espaço para responder perguntas da minha curiosidade, ou simplesmente para observar e saber se a História tem feito jus ao passado. Claro, não basta pra isso voltar só no tempo: no espaço também. Pra fazer coisas com algumas pessoas. Como por exemplo...


1. Brasil, 1984 - O país imaginado: campanha pelas Diretas.
Ok, em 1984 eu já era nascida, mas com 2 anos de idade não dá pra ter muita noção do que vinha mudando na cena política e social brasileira depois de vinte anos de ditadura militar e repressão aos direitos, especialmente os direitos civis.


Quem de fato saía às ruas pra exigir eleições diretas pra presidente? Que pessoas, que artistas, que trabalhadores? E o que diziam, como diziam, no que pensavam? Como eram realizados os comícios? Quem ia pra lá? O que essas pessoas conversavam enquanto esperavam o comício conversar?
Apesar de frustradas, as Diretas Já foram um marco em termos de manifestação na longa marcha pela cidadania no Brasil.

(Quer saber mais? Consulte Cidadania no Brasil. O Longo Caminho, do José Murillo de Carvalho, um senhor livro.)


2. Paris, França, 1975. Às margens do Sena com Milan Kundera.

Depois do que ficou conhecido como "Primavera de Praga", um nome bonito para uma repressão nada bonita realizada pelas forças soviéticas contra a abertura do socialismo tcheco, em 1968, muitos intelectuais e profissionais liberais, e gente envolvida com a resistência, teve que deixar a então Tchecoslováquia. O jovem escritor Milan Kundera foi um deles, indo exilar-se em Paris, em 1975.

Durante minha conversa com Kundera, regada a cafés com creme, croissants e charutos, num cafezinho simpático às margens do Sena, ele me contaria a história da resistência tcheca do seu próprio ponto de vista, e como o contexto político deu o tom a "A Insustentável Leveza do Ser". Me diria também, lógico, porque eu sou bem "brother", em que pensamentos e sentimentos se baseou para compor a história de Thomas e Thereza, personagens tão opostos e tão complementares. E, calro, tiraria uma casquinha dele, porque o cara era um pão quando era jovenzinho. O que confirma a minha máxima de que a França exala romance e rebeldia por cada um de seus poros.

(Sobre a Primavera de Praga, Eric Hobsbawm dedica um capítulo do seu livro Era dos Extremos - O Breve Século XX.)

3. Hamburgo, Alemanha, 1957. With the Beatles!

Nessa época não existiam casas noturnas e muito menos discotecas em Hamburgo. Os lugares que faziam os dias e as noites passarem a toque de caixa e rock'n'roll eram as boates de striptease. Vários grupos vinham de Liverpool para se apresentar na cidade alemã. Um proprietário de boate, chamado Bruno, teve a ideia de por essas bandas para tocar em espetáculos ininterruptos, ao longo de horas, a fim de atrair quem passava. Nos EUA isso era chamado de "nonstop striptease". O mundo dá voltas e os Beatles foram contactados pelo tal Bruno. Toparam. Chegaram a fazer dezenas de apresentações em Hamburgo, antes de estourarem mundialmente no início dos anos '60. Chegaram a fazer shows de oito horas seguidas. Isso fez com que a banda se desenvolvesse e amadurecesse, extrapolando o repertório básico e ganhando resistência no palco, e sintonia entre os membros. Para depois abrirem com chave de ouro a década de '60 e conquistarem o mundo.

E John me diria, numa das minhas viagens em que iria vê-los, com a minha câmera rosa-pink:

Melhoramos e ficamos mais confiantes. Isso foi inevitável com aquela experiência de tocar durante toda a noite.

(Essa história do sucesso e oportunidade dos Beatles é citada no livro de Malcolm Gladwell, Outliers - Fora de Série).



Preciso de um pit stop. Aguardem as próximas paradas/destinos!