sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Consciência Negra: Parabéns para a Educação no Brasil!

Hoje é dia da Consciência Negra e recebi do Depto. de Letras da UFS o link para um artigo sobre os 250 anos da oficialização da educação no Brasil, fazendo uma ponte com o caso da Dra. Ana Flávia Pinto. Não concordo com algumas coisas, mas o texto certamente contribui pra quem é formador de opinião.
 
Reproduzo na íntegra o artigo; é grande, mas vale a pena ler!
O texto está disponível também no link: http://www.ufs.br/?pg=artigo&id=130

E, claro, fica aquele abraço para a broderagem que contribuiu para a formação da cultura brasileira!
Que a consciência seja de todos.

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Parabéns para a Educação no Brasil!
Maria Aparecida Silva Ribeiro

No ano em que se comemoram os duzentos e cinqüenta anos da oficialização do sistema de educação no Brasil (Decreto de 1759 do Marquês de Pombal) e no mês em que um dos instrumentos de avaliação da educação nacional invade a cena dos noticiários pela suspeita de baixa isenção em seus procedimentos, um incidente localizado no pequeníssimo aeroporto do menor estado da federação cruza, de modo um tanto perverso, reflexões nascidas nas diversas instâncias de estudo da educação brasileira.

Num dos mais concorridos vestibulares do Brasil, candidatos de vários estados aspiram a uma vaga na Universidade Federal de Sergipe, disputando, muitos deles, durante anos seguidos, um lugar de um dos maiores departamentos desta instituição pública de ensino superior, maior em número de alunos, docentes, aulas ministradas, formandos etc - o Departamento de Medicina.

Em geral, vencem essa maratona os candidatos mais bem preparados. O que não quer dizer que os reprovados, ou não classificados, não tenham se esforçado – e muito. Mas que os que chegam a ocupar aqueles bancos escolares são os que foram efetivamente preparados para passar pela duríssima seleção; aqueles que, em geral, cursaram seu ensino fundamental e médio em instituições privadas, cujas altas mensalidades (principalmente, se colocadas na proporção dos salários pagos a professores, funcionários, trabalhadores de empresas públicas e privadas, dos diversos setores, da capital e região metropolitana; do interior, nem se fala...) lhes deram direito a um treinamento de rigor quase militar: horas e horas de estudo, de aulas expositivas, de técnicas de memorização – macetes, musiquinhas tolas para decorar fórmulas complexas – mediocridade disfarçada de esperteza; exercícios repetidos à exaustão – metodologia de rolo compressor – finais de semana inteiros dedicados a devorar apostilas insípidas, a simular provas, a comparar resultados – os seus com os de outros, os seus de hoje com os de ontem – em atividades massacrantes que, dentre outras coisas, os colocavam em permanente estado de ansiedade, os atiravam da euforia dos bons resultados à frustração nos testes em que não iam bem, mexiam com sua auto-estima, desestabilizavam seus humores. Enquanto isso, suas vidas passavam, sem se darem conta.

Mas, enfim, chegaram lá. Muitos da mesma escola seleta, da mesma superturma. Não é surpresa se encontrarem nas salas de aula das disciplinas do curso de Medicina classes inteiras de colegas de toda a educação básica, alunos que se conhecem desde o jardim de infância. Jovens que, à maneira do best seller dos anos oitenta, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, sabiam desde os oito anos de idade que seriam médicos. E que, para ser médico, num futuro que, à época, poderia parecer longínquo, teriam que ser o número um sempre, desde então. E que, desde então, colocaram em foco o domínio de um jogo que lhes garantiria, numa só tacada, a vaga no curso de Medicina numa instituição pública de educação superior – a mais prestigiada – e, como conseqüência, um lugar de destaque na sociedade sergipana, cujo usufruto de um título de “doutor” e conseqüente acesso a numerosos bens de consumo lhes garantiriam a recompensa por anos de trabalho árduo na escola e a satisfação de seus pais por terem dado a melhor educação ao seu filho.

No caso da médica que, no aeroporto de Aracaju, protagonizou um curta-metragem de péssimo gosto veiculado na Internet, além da conquista desse sonho de várias gerações de familiares, tinha também o de um casamento, com direito a príncipe encantado e lua de mel “no estrangeiro”. Epíteto de “doutora” acompanhado do de “esposa”, com direito a passaporte carimbado são, de fato, muitas conquistas acontecendo a um só tempo.

Mas no meio do caminho havia uma pedra.

A pedra em seu caminho foi o entrave à realização do conto de fadas da moça. E provavelmente não foi causado – apenas – conforme alegado por seu advogado de defesa, pelo estresse que sofreu por tanta felicidade junta.

Foi algo anterior e muito mais complexo.
Sem invadir levianamente o terreno pouco familiar das teorias do comportamento, já que o episódio é um prato cheio para psicólogos e demais interessados nas ações e reações humanas, fico com uma evidência cuja natureza tem ocupado, pelo menos, meus últimos quinze anos de estudos e prática profissional: a educação de crianças e jovens. Dito isto, avanço afirmando que a pedra no caminho da médica recém-formada e recém-casada resulta da precária apropriação que tem realizado, no decorrer do seu percurso formativo, das referências conceituais recebidas da família/escola/sociedade.

De fato, a moça deve ter sido filha obediente, boa aluna, amiga legal, em toda sua infância e adolescência. O sucesso inegável na prova objetiva, somativa, do vestibular que prestou, também, é sinal de esforço, disciplina, concentração. O casamento, provavelmente um sonho cultivado há muito tempo e compartilhado por outras jovens de sua idade, também diz alguma coisa a respeito de sua criação e formação familiar.

Mas, francamente, a moça não deve ter feito direito seus deveres de casa.
Por exemplo, se tivesse lido, bem, o bilhete de passagem que adquiriu, teria aprendido que a antecedência de check-in para vôo nacional é de uma hora e para vôo internacional, de duas.

Se tivesse lido os jornais dos últimos meses, teria se dado conta de que, atualmente, o chefe de estado mais poderoso do planeta é negro.
Se tivesse acompanhado um pouco das chamadas “atualidades”, que também é matéria dos concursos públicos, saberia que o presidente de seu país, já em seu segundo mandato, tem origem pobre, não ostenta diploma de ensino superior, embora os investimentos que têm feito em educação, inclusive na “superior”, revelem uma atenção especial a esse setor. Passível de críticas de diversos grupos, a que todo administrador da coisa pública certamente está sujeito, foi chamado de The Man por aquele chefe de estado mais poderoso do mundo. Uma expressão que, em inglês, quer dizer, mais ou menos, “O Cara”, com certeza não por sua origem ou pelo jeitão coloquial – em geral, pouco comuns em um estadista – mas pelo prestígio internacional que tem adquirido em sua trajetória.

Oh, mas a moça precisava relaxar! Se ela tivesse então, ao menos, visto um pouco da teledramaturgia nacional recente, a boa e velha novela das oito, veria que já existe uma Helena, do Manoel Carlos, moradora do Leblon, musa da glamourosa cidade de Búzios,(que já teve Brigitte Bardot como musa) que é (!) negra. Cuja interpretação coube à atriz que já foi protagonista em outra época, dando vida à Xica da Silva, a escrava tornada princesa à força dos diamantes, no Arraial do Tijuco ou Diamantina do período colonial – essa aula de História a doutora deve ter perdido.

Mas, com certeza, leu Machado de Assis. Porque o vestibular a obrigou. E será que não reparou, na leitura de sua biografia, que o maior escritor brasileiro de todos os tempos, fundador da Academia Brasileira de Letras era (!) negro?
Fragmentos de informação, pequenos detalhes que a escola deixou passar, ou que a leitura apressada dos textos dos livros, e dos textos da vida, não captou. Referências subliminares que os currículos formais não fizeram questão de ressaltar. E tampouco a leitora, de nível superior, fez questão de se apropriar: temas transversais, ligados ao momento histórico vivido pelo país e pelo mundo, tópicos de estudo sobre diversidade, tolerância, civilidade, educação social.

É fato que a moça tentou se redimir: à maneira das meninas da escola primária, surpreendidas em uma travessura qualquer na hora do recreio, pediu desculpas ao coleguinha. Mas foi de costas, na TV. Talvez para não prejudicar sua imagem de profissional da saúde (em geral, preocupados com o bem-estar coletivo). Só que, quando insultou o rapaz, estava de frente, aos berros, atirando ao chão objetos do guichê da companhia aérea, em sua fúria desmedida por ouvir, talvez como poucas vezes em sua vida, um não. E tampouco se importou de se declarar médica, na ocasião. Não parecia importar-se com o impacto de suas ações sobre sua carreira. Sua profissão parecia estar, pelo contrário, a serviço de uma “satisfação imediata ou seu dinheiro de volta”.

No calor da emoção, também, não tinha consciência de que havia uma câmera apontada para ela. (Nestes tempos de big brother, para o bem e para o mal, há sempre uma câmera atenta, à espera de uma imagem (in)digna de ser reproduzida. Às vezes, por sorte, a lente mira os infratores, os que têm algo a esconder. Como aqueles policiais lá do Rio de Janeiro, que deixaram o coordenador da ONG AfroReggae, educador social atuante, agonizar até a morte, depois de sofrer assalto, agressão, com o requinte de agentes da lei lhe subtraindo os pertences que os ladrões deixaram para trás.

Ainda bem que a mesma câmera que registra caras e bundas, registra coisas bem mais vergonhosas, criminosas e passíveis de punição (cujos processos, no caso dos dois crimes – omissão de socorro e racismo – faremos questão de acompanhar, pelo mesmo monitor indiscreto).

Neste ano, que a educação escolar no Brasil completa dois séculos e meio, especialmente neste mês de novembro, em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, meu recado, minha admiração vai para a família que educou, muito bem, o funcionário da companhia aérea que atendeu à doutora.

Para mim, de fato, ele também é O Cara!


Currículo
MARIA APARECIDA SILVA RIBEIRO é Doutora em Letras pela PUC-RIO, Professora Adjunta do Departamento de Letras da UFS. Colaboradora do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, PROJOVEM URBANO.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caso Ana Flávia

Você, caro leitor, já deve bem ter percebido que os cameramen amadores estão em alta na imprensa. Os casos mais famosos recentemente foram os vídeos do "DEVOLVE O MEU CHIP, PE-DRO!" e da professora baiana dançando o "Tudo enfiado" e fazendo strip-tease no palco. Os dois protagonistas dos respecitvos fatos, aliás, viraram algum tipo de celebridade depois da notoriedade dos vídeos.

Agora temos mais um caso bombando no Youtube: o da médica sergipana Ana Flávia Pinto, que protagonizou um escândalo na madrugada do último dia 26, num flagrante claro de racismo contra um funcionário da GOL, Diego Gonzaga, ocorrido no aeroporto Santa Maria, em Aracaju. (Assista AQUI o vídeo e tire suas próprias conclusões).

A dra. Flávia, que deveria embarcar para sua lua-de-mel na Argentina, chegou ao aeroporto faltando 15 minutos para o embarque, e - obviamente - foi proibida de embarcar. Descontrolada, a médica pulou o balcãozinho do check-in da GOL e se sentou na esteira de bagagens, recusando-se a sair. Daí começou a profusão de ofensas contra os funcionários: "Quem vai pagar minha passagem? Esse morto de fome, que não tem nem onde cair morto? É um povo bando de analfabeto [sic] que não tem nem onde cair morto. Não tem dinheiro nem pra comprar feijão. Esse 'nêgo'."

Fiquei com dó do marido dela, coitado, em plena lua-de-mel ter que passar uma vergonha dessas. O cara ainda tentou amenizar, tentando fazer com que a mulher saísse da esteira. E quando ela finalmente saiu, avançou para o balcão dos computadores onde os funcionários do check-in trabalhavam para quebrar o máximo que pudesse. (Não sei o que aconteceria se chegasse um negro rico no consultório da Dra. Flávia).

Na nota oficial de desculpas, ela afirmou que seu comportamento ocorreu "em razão do estresse, ansiedade e desgaste físico relacionado às fases antes, durante a pós núpcias." Que seja, não importa. Poderia ter sido um pobre ou outro rico a fazer isso; um negro, um asiático, um índio, qualquer pessoa. A questão é que a reação violenta é só uma amostra do quanto o preconceito, a discriminação e o racismo ainda estão presentes de forma tão latente na sociedade. 

O século XXI está tão contraditório, mas tão contraditório, que tem sido o século da tecnologia, da 'modernidade', do acelerador de hádrons, e o século da continuação cultura da violência. E, a propósito, como disse o velho Einstein, "a Terceira Guerra Mundial, se houver, vai ser travada no pau e na pedra." Né?







quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um filme de anti-história

Uma paródia, um arremedo de história, e reconstruída cheia de culpas.



"Bastardos Inglórios" (Inglorious Basterds, 2009), o novo filme do diretor Quentin Tarantino, acusa em todas as entrelinhas o que o cinema pode fazer sem precisar de provas, sem precisar de fatos, pois ele mesmo constrói e reelabora como bem os entender. Neste longa já tão aclamado mundo afora, Tarantino "muda" a história e dá a punição supostamente "merecida" pelos massacres nazistas cometidos durante a Segunda Guerra Mundial (que, a propósito, em 2009 se rememora os 70 anos de seu início).


É o sentimento de vingança a força motriz do filme. Num extremo está o protagonista, o tenente norte-americano Aldo Reine, do Tennessee (um Brad Pitt bastante incomum, com um sotaque im-pa-gá-vel que me arrancou algumas das melhores risadas do filme de duas horas e meia - vide Reine tentando arranhar italiano numa festa, no úlitmo capítulo). Reine lidera os "Bastardos", um grupo de oito soldados judeus norte-americanos que embarcaram para a França ocupada em 1944 com o objetivo de matar krauts (nazistas alemães), perpetrando uma crueldade semelhante às atrocidades nazistas. Essa "justiça com as próprias mãos" segue o padrão de escalpelar os soldados depois de mortos, ou esmagar seus crânios com um taco de baseball (o "especialista" com o taco é o "Urso Judeu", personagem interpetrado por Eli Roth, também judeu. A família de seus avós foi assassinada na Alemanha nazista. Roth, em entrevistas, disse que se sentiu vingado ao interpretar o personagem).


 A outra face da vingança é Shoshanna Dreyfuss, uma judia que presenciou o massacre de sua família comandado po um oficial alemão. Anos mais tarde, dona de um cinema, Shoshanna acaba atraindo o interesse de um jovem oficial alemão, ironicamente o protagonista de um dos filmes da propaganda nazi de Goebbels. Decidido que a estreia seria no cinema da moça, à qual compareceria o alto escalão nazista, Shoshanna também decide agir por conta própria e transformar o espetáculo num inferno terrestre.

O propósito é claro: dar o "troco" nos "selvagens" nazistas. E é quase impossível, no final, não estar torcendo pelo sucesso dos Bastardos. Fui contagiada pelo sentimento de satisfação pela vingança "merecida" que emana dos personagens, e quando o escalão nazista foi pelos ares, incluindo Hitler, não pude deixar de aplaudir (ok, sozinha) e me empolgar, quase me levantando da poltrona: "Eeeeita, filme bom da pega!" (Mas, caramba, essa é, de longe, uma das melhores cenas, ao lado da sequência na taverna e do embate final entre Reine e Landa!).


"Bastardos Inglórios" é um filme às avessas, de anti-heróis, de anti-história, de pseudo-vitórias e pseudo-derrotas.  Tarantino se supera, provando que "mudar" os fatos evidencia que a história não é de ninguém, e que mexer com memórias tradicionalmente sacralizadas como as da perseguição aos judeus durante a IIGM leva a crer que o processo de perpetuação das mesmas ainda abriga sentimentos tão humanos como ódio, vingança e redenção.

domingo, 6 de setembro de 2009

Sobre músicos, acarajés e ukuleles

O Beirut fez sua primeira apresentação no Brasil nesta sexta última, na cidade de Salvador. A apresentação fez parte do primeiro dia da 16a. edição do PercPan, Panorama Percussivo Mundial, considerado o maior festival de percussão do mundo.
Em Salvador os shows foram dias 4 e 5 de setembro. No Rio de Janeiro, acontecerão dias 8 e 9, com o Beirut no dia 9.

Acompanhe o comentário do show em: http://magicacaixa.blogspot.com/2009/09/o-primeiro-show-do-beirut-no-brasil.html

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Meus oito anos

Da saudade daquele tempo em que minha preocupação maior era o dever de casa, me veio a lembrança deste belo poema de Casimiro de Abreu.

Meus Oito Anos
Casimiro de abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência! -
Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar - é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito, -
Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais! -
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!